Existe uma cena bastante comum dentro das empresas.
A reunião de gestão começa. Alguém abre uma planilha, um dashboard ou um software. Existem dezenas de números organizados por cores, departamentos e períodos. A apresentação parece completa.
Então vem a pergunta que separa um painel bonito de um sistema de gestão de verdade:
O que vamos decidir a partir desses números?
O silêncio que costuma aparecer depois dessa pergunta revela um problema muito maior do que a falta de indicadores.
Muitas empresas não sofrem porque medem pouco. Sofrem porque medem coisas demais sem saber por que estão medindo.
Um bom sistema de indicadores de gestão não começa no dashboard. Também não começa escolhendo gráficos ou copiando KPIs de outras empresas.
Ele começa entendendo o que precisa ser controlado para que a organização cumpra aquilo que decidiu fazer.
Essa mudança parece simples, mas transforma completamente a gestão.
O problema não é ter poucos indicadores
Existe uma crença de que empresas mais maduras precisam acompanhar uma quantidade cada vez maior de métricas.
Nem sempre.
Mais indicadores podem significar apenas mais trabalho operacional, mais preenchimento de planilhas, mais reuniões e mais informação para interpretar.
Quantidade não garante qualidade.
Na prática, um indicador só faz sentido quando existe uma razão gerencial clara para acompanhá-lo.
Um teste simples ajuda bastante:
Se esse indicador desaparecer amanhã, alguma decisão importante ficará pior?
Se a resposta for não, talvez o indicador não seja tão importante quanto parecia.
Essa reflexão ganha ainda mais força quando observamos como os indicadores se comportam na rotina.
Durante um diagnóstico realizado em uma operação industrial, por exemplo, havia uma métrica comercial relacionada à atividade da equipe que estava sem atualização havia meses. O responsável havia saído e ninguém continuou alimentando a informação.
Ao mesmo tempo, o faturamento estava atualizado.
Por quê?
Porque o gestor precisava do faturamento para administrar o negócio e cobrava aquela informação regularmente.
Essa diferença é reveladora.
O indicador que participa da decisão encontra espaço na rotina.
O indicador criado apenas para cumprir tabela tende a ser abandonado.
Poucos e bons indicadores é uma escolha de gestão
A ideia de trabalhar com poucos e bons indicadores não significa abandonar o controle.
Significa escolher melhor aquilo que merece atenção.
A empresa continua precisando acompanhar diferentes dimensões do negócio, mas cada indicador precisa ter uma função.
Uma arquitetura bastante consistente é organizar os indicadores a partir de quatro origens principais:
- estratégia;
- processos;
- pessoas;
- controles de qualidade.
Essa estrutura cria uma lógica importante.
Em vez de inventar métricas e depois tentar descobrir onde encaixá-las, a empresa parte daquilo que precisa entregar.
1. Indicadores estratégicos
Os indicadores estratégicos respondem a uma pergunta fundamental:
Estamos avançando em direção aos objetivos que definimos para a empresa?
Imagine que a organização estabeleça como objetivo aumentar a receita em 30%.
Não basta registrar esse objetivo em um planejamento estratégico.
Será necessário acompanhar se o resultado está evoluindo, se a tendência é favorável, se existe distância relevante em relação à meta e se alguma ação precisa ser corrigida.
O indicador nasce do objetivo.
Esse princípio evita um erro recorrente, que é ter um planejamento cheio de intenções e um painel de indicadores completamente desconectado dessas intenções.
Se existe um objetivo estratégico realmente importante, deve existir uma forma de monitorá-lo.
E existe também uma pergunta incômoda, mas necessária:
Se não há interesse em medir se o objetivo foi atingido, será que ele é realmente um objetivo estratégico?
A gestão começa a amadurecer quando estratégia deixa de ser um documento e passa a gerar compromissos mensuráveis.
2. Indicadores de processo
A estratégia sozinha não entrega resultado.
Ela precisa ser executada por meio dos processos da organização.
Por isso, o segundo nível de indicadores deve responder:
O processo está entregando aquilo para o qual foi criado?
Todo processo existe por algum motivo.
O processo comercial precisa produzir determinado resultado.
O processo financeiro precisa cumprir determinado propósito.
Gestão de projetos, manutenção, atendimento, produção e outras rotinas também existem para entregar resultados específicos.
O indicador do processo serve para verificar se isso está acontecendo.
Essa lógica evita a criação de métricas isoladas.
Em vez de acompanhar uma atividade apenas porque ela é fácil de contar, a empresa pergunta qual resultado aquela atividade deveria produzir.
Esse detalhe faz diferença.
Quantidade de reuniões, visitas ou contatos pode ser relevante em determinadas operações. Mas contar atividades sem relacioná-las ao resultado esperado pode criar uma falsa sensação de controle.
O fato de algo ser mensurável não significa que precisa ser transformado em indicador.
3. Indicadores de pessoas
Existe também a dimensão individual.
Uma pessoa ocupa um cargo, executa determinadas responsabilidades dentro de processos e contribui para um resultado.
Nesse contexto, faz sentido que exista pelo menos uma medida capaz de mostrar a contribuição esperada daquela função.
O objetivo não é transformar a gestão de pessoas em vigilância.
É permitir que o próprio colaborador compreenda de forma objetiva o resultado esperado do seu trabalho.
Quando bem estruturado, o indicador individual ajuda a responder:
O trabalho realizado por essa pessoa está contribuindo da maneira esperada para o processo do qual ela participa?
Observe o encadeamento.
A pessoa contribui para o processo.
O processo contribui para a estratégia.
A estratégia direciona a empresa para sua missão e para seus objetivos.
Quando os indicadores acompanham esse raciocínio, o sistema deixa de ser uma coleção de números.
Ele passa a representar a lógica de funcionamento da organização.
4. Indicadores de controle de qualidade
Algumas operações precisam monitorar características específicas das entregas, das saídas dos processos ou de controles associados ao sistema de gestão.
Nesses casos, existe uma quarta origem legítima para o indicador.
O controle de qualidade precisa ser monitorado porque alguma condição precisa ser garantida.
Não se trata necessariamente de estratégia direta ou desempenho individual. É uma necessidade objetiva de controle.
A questão permanece a mesma:
O que precisamos acompanhar para ter segurança de que essa saída está ocorrendo dentro do padrão esperado?
Antes de criar um indicador manual, faça esta pergunta
Existe uma reflexão especialmente útil para empresas que estão construindo ou revisando sua gestão por indicadores.
Sempre que surgir a necessidade de criar uma nova métrica, pergunte:
Por que esse indicador não nasceu de um objetivo estratégico, de um processo, de uma responsabilidade de uma pessoa ou de um controle de qualidade?
Talvez exista uma justificativa perfeitamente legítima.
Mas a pergunta merece ser feita.
Em alguns casos, a necessidade de criar um indicador completamente separado revela que o processo ainda não foi bem desenhado.
Em outros, mostra que existe um objetivo importante que não foi formalizado.
Também pode revelar uma responsabilidade mal definida.
A criação de um indicador não deveria esconder um problema de estrutura.
Ela deveria ajudar a enxergá-lo.
Indicador sem dono tende a virar dado atrasado
Depois de decidir o que medir, surge uma questão operacional que costuma ser subestimada:
Quem é responsável por alimentar o indicador?
Dizer que “o comercial atualiza” ou que “o financeiro acompanha” é insuficiente em muitos casos.
Responsabilidade difusa quase sempre produz execução difusa.
O indicador precisa ter um responsável claramente definido.
Alguém deve saber:
qual informação precisa ser registrada;
quando deve ser registrada;
qual é a fonte;
qual frequência precisa ser respeitada;
o que fazer quando houver divergência;
quem analisa o resultado depois.
Esse ponto é fundamental porque um indicador sem responsável pode existir perfeitamente no sistema e, ainda assim, ser inútil.
O problema não estará na ferramenta.
Estará na governança.
Frequência também precisa fazer sentido
Nem tudo precisa ser acompanhado diariamente.
Nem tudo deve esperar até o fechamento anual.
A frequência precisa corresponder à velocidade com que a empresa precisa reagir.
Uma informação mensal pode ser suficiente para um determinado objetivo.
Outra precisa ser semanal.
Uma operação agrícola pode ter uma medição diária durante um período específico da safra.
Um indicador estratégico pode exigir acompanhamento mensal, com avaliação do acumulado anual.
Definir frequência sem pensar na decisão cria dois riscos.
O primeiro é medir rápido demais e gerar ruído.
O segundo é medir devagar demais e descobrir o problema quando já não existe tempo para corrigi-lo.
Um bom indicador precisa informar a direção
Outro elemento frequentemente ignorado é a direção da meta.
Quando o resultado sobe, isso é bom ou ruim?
Para faturamento, crescimento ou entregas, normalmente um valor maior pode representar melhor desempenho.
Para inadimplência, erros, perdas ou determinados desvios, o raciocínio pode ser o oposto.
A empresa precisa deixar isso explícito.
Sem essa informação, um sistema consegue mostrar números, mas terá dificuldade para interpretar corretamente se determinado resultado representa melhora ou piora.
Nem todo resultado fora da meta exige reação automática
Existe outro risco em uma gestão excessivamente mecânica: tratar qualquer resultado mensal fora da meta como um problema isolado.
Imagine uma empresa com meta anual de vendas distribuída mensalmente.
Em janeiro, a equipe antecipa contratos e entrega muito acima da meta daquele mês.
Em fevereiro, vende abaixo da meta mensal.
Olhando apenas fevereiro, alguém poderia concluir que existe um problema.
Olhando o acumulado, a empresa pode continuar muito acima da trajetória necessária para cumprir o ano.
Isso não significa ignorar desvios.
Significa analisar contexto.
Gestão não é reagir automaticamente à cor vermelha de um gráfico.
Gestão é compreender o que o número está dizendo antes de tomar uma decisão.
Dashboards devem facilitar leitura, não impressionar
Quando os indicadores já possuem origem, responsável, meta e frequência, o dashboard começa a cumprir sua verdadeira função.
Ele organiza informação para facilitar análise.
Pode haver uma visão principal.
Podem existir painéis específicos por área, processo ou perspectiva estratégica.
É possível agrupar indicadores financeiros, comerciais, operacionais ou de pessoas.
Mas a pergunta principal continua sendo a mesma:
Esse painel ajuda alguém a decidir?
Um dashboard excelente não é o que possui mais gráficos.
É o que reduz o tempo necessário para compreender o que está acontecendo.
Como saber se um indicador de gestão é realmente bom?
Um indicador consistente normalmente passa por seis testes.
1. Tem uma origem clara
É possível explicar exatamente por que ele existe.
2. Está relacionado a um resultado
Não mede alguma coisa apenas porque ela está disponível.
3. Possui responsável
Existe alguém encarregado de manter o dado confiável.
4. Possui meta compreensível
A empresa sabe qual resultado procura e como interpretar variações.
5. Tem frequência adequada
O dado chega antes da decisão, não depois dela.
6. Produz alguma consequência gerencial
Quando muda, alguma conversa, análise ou decisão pode mudar também.
Se nenhum comportamento de gestão se altera independentemente do resultado, vale revisar a necessidade do indicador.
Indicadores de gestão não substituem gestão
É possível comprar sistemas sofisticados, construir dashboards visualmente impecáveis e automatizar a coleta de informações.
Nada disso resolve sozinho um problema de gestão.
Tecnologia organiza.
Tecnologia reduz trabalho.
Tecnologia pode acelerar análises.
Mas ainda é necessário decidir o que merece ser medido e o que fazer com aquilo que foi medido.
Essa é a diferença entre digitalizar uma planilha e construir uma gestão orientada por indicadores.
O melhor indicador é aquele que entra na conversa certa
Uma empresa não precisa se orgulhar da quantidade de indicadores que possui.
Precisa saber quais números não pode deixar de acompanhar.
Se o gestor procura aquela informação.
Se a equipe entende por que ela importa.
Se o resultado está ligado a um objetivo.
Se um desvio produz investigação.
Se uma evolução influencia escolhas.
Então existe ali um indicador vivo.
Quando nenhuma dessas coisas acontece, talvez exista apenas um número armazenado.
E números armazenados não melhoram empresas.
Decisões melhores, sim.
Perguntas frequentes sobre indicadores de gestão
O que são indicadores de gestão?
São medidas utilizadas para acompanhar resultados relevantes da organização, como objetivos estratégicos, desempenho de processos, responsabilidades de pessoas e controles de qualidade.
Quantos indicadores uma empresa deve ter?
Não existe um número universal. O mais importante é evitar excesso de métricas sem uso gerencial e manter indicadores suficientes para acompanhar os resultados realmente necessários.
Todo processo deve ter indicador?
Se o processo possui um objetivo, é importante existir pelo menos uma forma de verificar se ele está cumprindo aquilo que se espera dele.
Qual é a diferença entre indicador e meta?
O indicador define o que será medido. A meta determina o resultado esperado para aquela medida em determinado período ou contexto.
Quem deve preencher o indicador?
A responsabilidade deve ser explícita. Um indicador sem um dono claro tende a sofrer com atraso, inconsistência ou abandono.
Quando vale criar um novo indicador?
Quando existe uma necessidade legítima de decisão ou controle que ainda não está adequadamente representada pelos objetivos, processos, pessoas ou controles de qualidade existentes.
Indicadores precisam estar em dashboards?
Não obrigatoriamente. O dashboard facilita visualização e consolidação, mas o valor do indicador está na qualidade da informação e na decisão que ele suporta.
Conclusão
A pergunta mais importante de uma gestão orientada por indicadores não é “o que conseguimos medir?”.
É outra:
O que precisamos saber para administrar melhor a empresa?
A partir daí, os indicadores deixam de ser obrigação administrativa.
Passam a conectar estratégia, processos, pessoas e qualidade.
Passam a ter responsáveis.
Passam a participar das reuniões.
Passam a gerar investigação quando algo sai do esperado.
E, principalmente, passam a produzir decisões.
É nesse momento que a empresa deixa de acumular métricas e começa, de fato, a gerir por indicadores.
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